Estamos vivendo na era das “coisas inteligentes”. Dos onipresentes smartphones até cidades inteiras (smart cities), o ritmo de automatização e modernização dos objetos ao nosso redor é alucinante. Os edifícios, onde passamos a maior parte do nosso tempo, não ficam para trás: com o intuito de otimizar a gestão, reduzir custos e aumentar conforto, os prédios inteligentes são cada vez mais comuns nas grandes cidades do Brasil e do mundo.

O que são prédios inteligentes?

Frequentemente, são considerados inteligentes os prédios que possuem algum tipo de certificação ambiental, como LEED® ou AQUA®, mas isso não é necessariamente verdade. Segundo o site www.arquitetura.com.br, prédios inteligentes são “construções projetadas para o consumo sustentável, de maneira (…) a reduzir desperdícios e custos”, visando atingir o “conforto e bem-estar de seus ocupantes”. Para alcançar esse objetivo, usam tecnologia avançada, com equipamentos modernos conectados entre si através de processos de controle e automação. Geralmente seus principais sistemas, como ar condicionado e iluminação, são monitorados de forma central através de um sistema de automação predial (BMS – Building Management System).

Fica implícito nessa explicação que os sistemas inteligentes embutidos num prédio inteligente têm o propósito de ajudar o prédio a atingir os seus objetivos primordiais – fornecer condições de conforto aos seus usuários – de forma automática e a reduzir desperdícios. Parece uma fórmula de sucesso garantido.

A influência da operação no desperdício de energia em prédios

Tem sido constatado cada vez mais que esses prédios inteligentes muitas vezes não têm de fato o consumo de energia menor que prédios comuns, algumas vezes com consumos bem maiores.

Ao visitar dezenas de edifícios Brasil afora buscando oportunidades de eficiência energética, os motivos saltam aos olhos. Primeiramente, ocorre um fenômeno muito comum entre usuários de prédios inteligentes: uma sensação de que como o prédio já é inteligente por si só, não é preciso fazer nenhum esforço adicional para torná-lo ainda mais eficiente. Como resultado, cuidados simples para combater desperdícios, como apagar as luzes ou fazer uma manutenção, deixam de ser prioridade e são esquecidos.

O segundo motivo, ainda mais comum que o primeiro, é que sistemas inteligentes só são inteligentes quando são usados. Infelizmente, são inúmeros os casos em que a automação está simplesmente desativada. Isso ocorre por diversos fatores, que geralmente podemos rastrear até o momento de transição entre a construção e a operação. Na pressa para entregar uma obra e inaugurar o prédio, não há o cuidado necessário para programar corretamente todos os parâmetros de controle e automação, testar os componentes, finalizar o processo de comissionamento e fazer um handover adequado do sistema à futura equipe de operação e manutenção. Muitas vezes a equipe de operação e manutenção sequer sabe quem projetou, instalou e programou o sistema, muito menos recebeu um treinamento sobre como controlar seus parâmetros, tornando a tarefa de operá-lo eficientemente impossível.

Finalmente, a falta de capacitação dos operadores de sistemas de BMS é uma constante. Além de o próprio sistema ser complexo, é necessário ter um bom entendimento dos fundamentos da eficiência energética. No entanto, a formação técnica de base no Brasil é deficitária no ensino de práticas eficientes, e está agora apenas começando a fazer esforços para inserir a eficiência energética em seus currículos. Além disso, a rotatividade dos membros das equipes prediais é muito alta, fazendo com que o conhecimento adquirido seja perdido muito rapidamente quando não há uma gestão energética contínua

Exemplos de ineficiências

Há muitos indícios de que um prédio projetado de forma inteligente pode estar operando muito aquém do seu potencial, tornando-se ineficiente. Listamos aqui alguns exemplos que encontramos com frequência em nossas auditorias energéticas, em geral problemas que existiam há anos, mas que não haviam sido detectados previamente. Algumas dessas medidas chegam a ter paybacks menores que um mês, com economias de centenas de milhares de reais por ano:

  • Variadores de frequência (VFDs) programados de forma equivocada
  • Sensores de temperatura e pressão fornecendo leituras incorretas
  • Chillers em modo manual
  • Iluminação programada de forma ineficiente
  • Sistemas inteiros sem programação horária, operando 24 horas por dia
  • Setpoints de temperatura inadequados
  • Válvulas defeituosas

Embora pareçam simples, esses problemas perduram por anos porque a rotina de um gestor predial frequentemente não deixa tempo para investigação de melhorias. Por isso, é importante ter o acompanhamento de um especialista de eficiência energética para detectar as oportunidades e orientar sobre a sua execução.

Soluções

Existem, sim, exemplos de prédios inteligentes com níveis baixos de consumo de energia. Como garantir um consumo eficiente?

  1. A realização de um Projeto Integrado para edifícios novos ou reformas evita problemas na entrega do edifício, garantindo não só que os sistemas inteligentes projetados sejam efetivamente instalados, mas que todos os parâmetros e treinamentos sejam repassados à equipe de O&M.
  2. A contratação de um Diagnóstico Energético em edifícios existentes permite identificar e eliminar as ineficiências e aproveitar ao máximo o potencial dos sistemas instalados.
  3. A Capacitação dos gestores e operadores prediais precisa ser feita de forma periódica, treinando-os sobre os conceitos de eficiência energética com exemplos práticos e reais.
  4. A implementação de um programa de Gestão Energética, com auxílio de especialistas, é o verdadeiro trunfo, pois reúne todas essas estratégias com uma visão global que garante a redução de consumo de forma perene.

Não podemos esquecer que a chave para a eficiência de prédios, inteligentes ou não, está nas pessoas.

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